Juros altos, crédito mais restrito e incertezas em relação às commodities têm mudado a forma como o produtor rural brasileiro investe.
O movimento ficou evidente na última edição da Agrishow 2026, realizada em Ribeirão Preto (SP), que registrou R$ 11,4 bilhões em intenções de negócios, queda de 22% em relação ao ano anterior.
Apesar disso, o cenário no campo está longe de indicar uma paralisação dos investimentos. As entrevistas indicam que o produtor segue investindo, mas de forma mais cautelosa, priorizando compras consideradas essenciais para manter produtividade e eficiência.
Durante a feira, o Agrofy News perguntou a representantes do Banco do Brasil, Santander Brasil, Sicredi e Cresol: “O produtor está deixando de investir ou só mudou o tipo de investimento por causa do custo do crédito?”
As respostas mostram um consenso: o agro continua investindo, mas com decisões mais seletivas e maior preocupação com o fluxo de caixa.
Produtor ajusta caixa e posterga compras, diz Banco do Brasil
Para Gilson Bittencourt, vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do Banco do Brasil, , o produtor rural segue investindo, mas muitos passaram a reorganizar o fluxo de caixa diante do aumento dos custos financeiros.
“O conjunto dos produtores rurais continua investindo. A prova disso é o aumento da área plantada, o aumento da produção e da produtividade no Brasil”, explicou durante o evento.
Segundo ele, produtores mais pressionados financeiramente têm adiado investimentos considerados menos urgentes.
“O que a gente tem é um grupo de produtores, especialmente aqueles que tão com seu fluxo de caixa mais comprometido, estão postergando aqueles investimentos que são possíveis de serem adiados, seja consertando um trator, investindo na recuperação, na manutenção desses equipamentos, para deixar para mais para frente eh fazer esses investimentos.”
Bittencourt destacou ainda que a movimentação da Agrishow mostra que parte do setor segue comprando máquinas e equipamentos, inclusive com recursos próprios.
“Nem todos os produtores estão com problema de fluxo de caixa. O que tem é isso de um ajuste melhor no seu fluxo de caixa de quem precisa.”
Crédito subsidiado menor muda estratégia do produtor
A redução da oferta de linhas subsidiadas também aparece como um dos principais fatores por trás da mudança no comportamento do produtor rural.
Para Ricardo Tessari, head comercial de Agronegócios no Santander Brasil, os produtores estão priorizando apenas investimentos considerados indispensáveis.
“O que a gente tem notado é que, quando o produtor efetivamente precisa trocar um bem ou fazer um investimento necessário, ele tem realizado esse investimento neste momento. Já aquele produtor que não tem urgência acaba postergando os investimentos”, conta.
Segundo Tessari, a menor disponibilidade de crédito controlado abriu espaço para novas modalidades de financiamento, especialmente os consórcios.
“O produtor hoje em dia, ele sabe que os recursos controlados subsidiados pelo governo estão quase que limitados. O que a gente tem sentido, inclusive, o próprio produtor vem buscar nesse momento são as linhas de consórcio.”
O executivo também comentou o anúncio feito pelo governo federal durante a abertura da Agrishow envolvendo novos recursos para financiamento. Para ele, a medida pode ajudar o mercado, embora ainda não seja suficiente para atender toda a demanda represada.
“Esse recurso, ele não é suficiente talvez para todos os investimentos represados, mas sim, ele traz uma condição diferente no mercado.”
Na abertura da Agrishow, o governo federal anunciou uma nova linha de financiamento de R$ 10 bilhões, com “taxa de um dígito”, voltada à compra de máquinas e implementos agrícolas,
Sicredi vê produtor mais cauteloso e focado em gestão
A cautela também é percebida por Clemente Renosto presidente da Sicredi. Segundo ele, o atual momento exige não apenas acesso ao crédito, mas também planejamento financeiro mais rigoroso.
“É um momento realmente de ter cautela. A recomendação nossa não é só prestar atendimento, arrumar o crédito para o associado, mas também dar a ele, a orientação financeira, dizer qual a melhor opção nesse momento.”
Renosto afirmou que o produtor deve evitar decisões baseadas em expectativas futuras sobre commodities, especialmente diante do atual cenário internacional.
“Não é o momento de fazer aquele investimento apostando em um aumento, exemplo, do preço de commodities no futuro, que isso é muito incerto.”
Na avaliação dele, fatores externos seguem pressionando os custos da atividade agropecuária.
“Os impactos que a guerra tem causado, não só na questão do petróleo, mas no custo direto também dos insumos e fertilizantes que encarece o custo de produção.”
Como alternativa, o executivo defende mais diversificação e eficiência dentro das propriedades rurais.
“É um momento realmente de fazer uma avaliação, estruturar melhor a sua propriedade, buscar a diversificação dentro da propriedade.”
Cresol aponta cautela, mas vê espaço para oportunidades
Já Marcelo Ludvichack, diretor de negócios da Cresol, avalia que, apesar do cenário econômico mais desafiador, muitos produtores seguem atentos às oportunidades de investimento.
“O produtor, ele está curioso, o produtor, ele quer investir, porém ele está um pouco mais cauteloso na opção de investimento.”
Segundo ele, a busca por crédito mais acessível se tornou prioridade nas negociações.
“Falando no mercado financeiro, ele está um pouco mais cauteloso nas condições do financiamento, procurando uma taxa de juro mais acessível, uma taxa de juro que faça mais sentido para necessidade que ele tem.”
Mesmo assim, Ludvichack acredita que parte do setor pode aproveitar o atual momento para realizar investimentos com foco em produtividade e retorno de médio e longo prazo.
“É um momento que dentro dessas incertezas é um momento que tem muita oportunidade para que o produtor possa agora fazer um bom investimento para que num prazo de médio longo prazo ele possa colher frutos.”
O cenário retratado pelas instituições financeiras aponta que o produtor rural brasileiro não deixou de investir, mas passou a tomar decisões mais seletivas diante do crédito mais caro e do ambiente econômico mais desafiador.
Fonte : news.agrofy





